19 novembro, 2010

Uso de antibióticos em ração é ligado a superbactérias

Posted in saúde às 8:04 am por Marcelo Guerra

DENISE MENCHEN

Controlar o uso de antibióticos em pessoas não é suficiente para conter superbactérias, alerta a pesquisadora alemã Kornelia Smalla. Ela defende a redução do uso dessas drogas em animais.

Para Smalla, que falou com a Folha na sexta, após palestra no Instituto Oswaldo Cruz, o problema é misturar antibióticos à ração, para estimular o crescimento de porcos, bois e frangos.]

A prática, proibida na Europa desde a década de 90, ainda é permitida no Brasil. No ano passado, o senador Tião Viana (PT/AC) apresentou projeto de lei para aboli-la, mas o texto está parado na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado.

Smalla, que é do instituto Julius Kühn, diz que até o uso restrito ao tratamento de doenças traz riscos. Como os animais ficam confinados aos milhares, a ocorrência de uma doença em alguns resulta na distribuição de antibióticos para todos, o que favorece a disseminação das superbactérias.

“Algumas têm genes que as protegem dos antibióticos. Quando usamos esses medicamentos, elas são as únicas que sobrevivem”, diz. Com o ambiente livre dos outros micróbios, elas passam a se multiplicar de forma rápida, o que eleva o risco de que, um dia, entrem em contato com pessoas com baixas defesas. O resultado são infecções que podem matar.

A situação fica mais grave porque as bactérias trocam informações genéticas: um organismo inofensivo ao homem que se prolifere pela capacidade de resistir a antibióticos contribui para que outro, patogênico, também ganhe essa característica.

“O antibiótico não age só sobre os causadores de doenças, mas sobre todas as bactérias.” Para enfrentar o problema, ela defende mudanças na criação dos animais, com o fim do confinamento.

Fonte: Folha de São Paulo

Anúncios

18 novembro, 2010

Uma semana de antibiótico pode enfraquecer as defesas do corpo por até dois anos

Posted in saúde tagged às 7:55 am por Marcelo Guerra

JULIANA VINES

Tomar antibiótico por uma semana pode prejudicar as defesas do organismo por até dois anos, segundo estudo feito pelo Instituto Sueco para Controle de Doenças Infecciosas e publicado na revista “Microbiology”.


Flora intestinal é o nome dado às bactérias que vivem na parede do intestino. Lá existem centenas de espécies de micro-organismos, protetores ou nocivos à saúde, que convivem em equilíbrio.

As bactérias “boas” têm funções metabólicas, como ajudar no funcionamento do intestino, na absorção de gordura e vitamina B12 e na produção de ácido fólico.

“A função mais importante é controlar bactérias desfavoráveis. Sem elas, nós viveríamos constantemente com infecções”, diz Ricardo Barbuti, médico endocrinologista da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Segundo o especialista, há muito se sabe que os antibióticos têm efeito na flora intestinal. O que o estudo recém-publicado mostra é que essas alterações duram muito mais tempo do que se pensava.

“Além de causar um desequilíbrio passageiro, o remédio também seleciona bactérias resistentes. Agora sabemos que essa resistência pode durar mais tempo”, explica André Zonetti de Arruda Leite, médico endocrinologista do Hospital das Clínicas de São Paulo.

CONSEQUÊNCIAS

Diarreias, disfunção intestinal e inflamações (colites) são as consequências mais comuns do desequilíbrio da flora intestinal. Tanto faz se o uso do antibiótico é feito de forma correta ou incorreta -por mais ou menos tempo do que o necessário.

“O medicamento deve ser usado só quando o benefício compensa o risco e não há outra alternativa”, diz Barbuti. Gripes, resfriados ou dores de cabeça não devem ser tratados com antibiótico.

Fonte: Folha de São Paulo

17 novembro, 2010

Paranoia de limpeza pode abrir espaço para ‘superbactérias’

Posted in saúde às 7:50 am por Marcelo Guerra

JULIANA VINES

A maioria das bactérias não faz mal a ninguém. Mesmo assim, todos os dias, zilhões de germes inocentes são exterminados por um arsenal cada vez maior e mais complexo de desinfetantes e sabonetes antissépticos.

Essa matança injusta e indiscriminada de micro-organismos é desnecessária e pode fazer mal à saúde. “Com a morte de bactérias neutras, sobra mais espaço para nocivas”, diz a médica Flávia Rossi, diretora do laboratório de microbiologia do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Além de ocupar espaço e comer células mortas, bactérias neutras desempenham várias funções no organismo. Ajudam na síntese de vitaminas e no funcionamento do intestino, por exemplo.

O biólogo Marcos André Vannier-Santos vai além e diz que, sem os parasitas, os homens não seriam os mesmos. “Temos vários genes e enzimas de origem bacteriana. A coagulação sanguínea acontece graças a bactérias. A placenta foi formada a partir de um vírus”, diz ele, que é pesquisador do laboratório de biomorfologia parasitária da Fundação Oswaldo Cruz,

É claro que muitos parasitas são nocivos e que os cuidados básicos com higiene são fundamentais, mas nada justifica uma certa paranoia desinfetante que está tomando ares de epidemia, a julgar pela quantidade de produtos “superpoderosos” que chegam ao mercado.

“Não é necessário ter em casa todos os cuidados que temos no ambiente hospitalar. Não precisa desinfetar todos os lugares. Água e sabão comum são suficientes”, diz Stefan Cunha Ujvari, médico infectologista, autor do livro “Perigos Ocultos nas Paisagens Brasileiras _Como Evitar Doenças Infecciosas” (Senac/SP, 232 págs., R$ 45).

A professora de português Priscila Blazko, 34, é uma das adeptas dos produtos que matam 99% dos germes. “Leio os rótulos e compro aquele que mata mais”, diz.

Quando seus dois filhos brincam na areia, Priscila exige que tirem a roupa antes de entrar em casa. “Eu sei, às vezes exagero.”

Não só ela. Estamos todos sob influência da “cultura da higiene”, na visão da antropóloga Sônia Weidner Maluf, professora da Universidade Federal de Santa Catarina.

“A ideia do que é limpo e do que é sujo é construída socialmente. Na nossa cultura, tudo que não é esterilizado é sujo e causa doença.”

Isso é incentivado, segundo ela, pelo medo coletivo. “As situações de risco são ampliadas pela publicidade, e as pessoas ficam com a ideia de que podem se contaminar a qualquer momento.”

MANIA DE LIMPEZA

Em excesso, a limpeza pode virar doença. Medo de contaminação é um dos transtornos obsessivo-compulsivos mais comuns, segundo a psiquiatra Roseli Shavitt, coordenadora do Protoc, grupo ligado ao Hospital das Clínicas de SP.

“A limpeza se torna um ritual obrigatório, que perturba a pessoa e impede que ela faça outras atividades.”

A dona de casa Marina Carpi, 53, sempre foi perfeccionista e gostou de tudo muito limpinho. Até que a mania passou a incomodar.

“Toda vez que saía de casa tinha que trocar de roupa porque achava que eu estava suja. Tomava vários banhos por dia para me sentir limpa”, diz ela, que fez terapia por três anos. Hoje, se considera bem melhor.

Além de ser um sintoma de um transtorno, lavar várias vezes as mãos e tomar vários banhos não faz bem à pele.

“Nossa pele tem uma barreira sebácea natural. Se a agredirmos, podemos causar infecções”, diz a dermatologista Luciana Conrado.

Um banho de cinco a dez minutos ao dia é suficiente. E não é preciso esfregar. “Não somos panelas, para ter que lavar com esponja. Sabonete, só onde está mesmo sujo.”

O contato com micro-organismos também estimula o sistema imunológico. “Crianças que não foram expostas a ambientes com mais bactérias e vírus têm maior possibilidade de desenvolver alergias”, afirma Clóvis Eduardo Santos Galvão, imunologista da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia.

RESISTÊNCIA

Muitos sabonetes e outros produtos bactericidas têm triclosan ou triclocarban na fórmula. Cientistas debatem se essas substâncias antimicrobianas podem selecionar bactérias resistentes, contribuindo para o surgimento de superbactérias.

“Qualquer antimicrobiano, ao eliminar bactérias, seleciona micro-organismos mais resistentes”, diz Marco Miguel, professor de microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Para ele, germicidas devem ser usados só em situações específicas: em hospitais e na manipulação profissional de alimentos e lixo.

“Sabão comum remove a sujeira com a mesma eficácia. Não devemos desperdiçar substâncias químicas. Com o tempo, teremos que criar novas, mais potentes”.

A polêmica vai longe. Semana passada, um grupo da Universidade do Arizona, nos EUA, depois de realizar estudos com os compostos químicos, declarou que não têm eficácia e não se degradam facilmente no ambiente.

Segundo a Unilever, fabricante da linha Lifebuoy, seu sabonete não tem triclosan na fórmula. “O ingrediente foi substituído por outro agente para minimizar o impacto ambiental”.

“A ação antibacteriana do produto é comprovada por rigorosos testes em laboratório e o uso pode evitar doenças comuns como diarreia e infecções respiratórias.”

De acordo com a Reckitt Benckiser, fabricante do sabonete Dettol, que tem triclocarban na fórmula, “o uso de produtos antimicrobianos, tais como Dettol, é capaz de remover as bactérias patogênicas, mas não as bactérias inofensivas da pele”.

Ainda segundo a fabricante, esses produtos “têm um papel importante na saúde pública e também ajudam a controlar surtos de resistência a antibióticos.”

A Colgate/Palmolive, fabricante do sabonete Protex, foi procurada pela reportagem, mas não respondeu.

Fonte: Folha de São Paulo